Não há dúvida de que a presente crise se coloca como um ponto de inflexão em nossas vidas. Ela denuncia a crueldade dos padrões de superexploração social e ambiental que caracterizam nossa sociedade.

A taxonomia de Lineu, amplamente utilizada na biologia desde o século 18, divide os seres vivos em cinco reinos: Protista, Monera, Fungi, Plantae e Animalia. Os vírus não integram nenhum deles, pois não são considerados organismos vivos. São feitos de uma molécula de proteína (RNA) coberta por uma camada de lipídios (gordura) – daí a necessidade de sabão ou álcool, que quebram a camada de gordura, para higienizar o corpo e os objetos em geral. Quando absorvidos pelas mucosas, ocular, nasal ou bucal, os vírus alteram o código genético das células, dando início a um processo de mutação e multiplicação de células contaminadas. Invisíveis a olho nu, são seres literalmente microscópicos – 100 milhões de partículas virais cabem em uma simples cabeça de alfinete.

Apesar de não serem considerados seres vivos, os vírus são seres terrestres. Coabitam o espaço e coproduzem o ambiente em que vivemos. Isso faz com que, em vez de fenômeno estranho ou externo, o coronavírus e a covid-19 sejam fruto do nosso modo de produção, da forma como organizamos a sociedade e nos relacionamos com os demais seres vivos e o planeta.

Dois fenômenos evidenciam essa ligação. O primeiro deles tem a ver com o surgimento do vírus. Pelo que se sabe, passou dos morcegos para outros animais e então para humanos, todos em convívio no mercado aberto de Wuhan, na China.

Mas o que explica essa rede de contaminações? Segundo a pesquisa Grandes fazendas produzem grandes gripes, o aspecto-chave da rápida propagação da doença está ligado à estrutura de nosso sistema produtivo agropecuário, baseado no modelo da agropecuária industrial. A produção em larga escala elimina barreiras de contenção ecológica, seja por meio do desmatamento, seja no enfraquecimento do sistema imunológico dos animais, propiciando as condições para a disseminação do vírus. Esse diagnóstico não é novo. Juntamente com o desmatamento, formas de urbanização predatória e eliminação da biodiversidade já haviam sido apontadas como razões da propagação de outras doenças, tais como ebola, zika, nipah e dengue. Como anunciou o Papa Francisco em sua bela encíclica LaudatoSí, que completa 5 anos em 24 de maio do corrente, “o nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta […] [e] as razões pelas quais um lugar se contamina exigem uma análise do funcionamento da sociedade, da sua economia, do seu comportamento, das suas maneiras de entender a realidade”.

O segundo fenômeno que liga a doença à nossa forma de organização social tem a ver com a maneira como ela tem se propagado. Se de um lado vemos que somos todos afetados, como sujeitos e coletivo, de outro, vê-se que os efeitos são diferentes e desiguais entre os grupos sociais. Inicialmente transportada da Europa para o Brasil por meio de pessoas das classes média e alta, a covid-19 logo se alastrou pelo país, atingindo, sobretudo, os segmentos mais vulneráveis do ponto de vista socioeconômico. As populações negras, pobres e periféricas são maioria entre os contaminados e mortos. Juntamente com as mulheres e os jovens, são também os grupos mais suscetíveis à fome, ao desemprego e à violência. É fato que tais vulnerabilidades são históricas, porém se agravaram com a crise e podem piorar ainda mais no futuro – caso este momento não seja aproveitado para promover as mudanças necessárias.

Considerando a gravidade da situação social, política, econômica e ecológica que já se abatia sobre a casa comum, nos perguntamos: qual a novidade da crise do coronavírus?

Uma delas tem a ver com a exposição de um fato bem simples e uma das principais contradições do capitalismo: a interdependência entre os seres humanos e destes com os demais seres terrestres. Isto é, nossa condição de seres sociais. Ao desnudar a teia de relações, em alguma medida a crise joga por terra a irrealizável utopia individualista e atomista do ideário neoliberal.

Associada a esta, outra novidade da crise foi sintetizada pelo antropólogo francês Bruno Latour, segundo o qual “ficou provado que é possível, em questão de semanas, suspender, em todo o mundo e ao mesmo tempo, um sistema econômico que até agora nos diziam ser impossível de desacelerar ou redirecionar”.

Uma terceira novidade tem a ver com a forma como a Terra está reagindo. Um dos sintomas é a diminuição dos níveis de poluição do ar e de contaminação das águas, que decorre da redução de emissão de dióxido de carbono (CO2) e nitrogênio (NO2), da diminuição da queima de carvão e do refino do petróleo, da redução das viagens de avião e da circulação de carros.

Na China, pela primeira vez em muito tempo é possível ver o azul do céu. Igualmente, São Paulo e outras cidades brasileiras têm registrado belos pores do sol nas últimas semanas.

Contrários à proposta do isolamento e da desaceleração da economia, os deuses do “mercado” e seus agentes terrestres – banqueiros, apostadores do mercado financeiro e até presidentes da república – pressionam para a volta das atividades econômicas. Aqui novamente recorro a Latour para dizer: “De jeito nenhum! A última coisa a fazer seria voltar a fazer tudo o que fizemos antes”. Nada de voltar a um normal tão desigual e desumano.

Não há dúvida de que a presente crise se coloca como um ponto de inflexão em nossa vida. Ela denuncia a crueldade dos padrões de superexploração social e ambiental que caracterizam nossa sociedade. A necessidade de mudança está posta e com regime de urgência.

No entanto, há que se considerar que é possível, para não dizer provável, que os esforços de reconstrução sejam tomados pela mesma lógica produtivista e concentradora do presente.

Sem efetivo apoio estatal, muitos pequenos comércios e empresas dificilmente conseguirão retomar as atividades e podem vir a ser incorporados por grandes grupos empresariais. A situação de agricultores e restaurantes denuncia a precariedade do sistema agroalimentar, que já é um dos setores mais concentrados da economia mundial. Mais que triste, é revoltante vermos toneladas de alimentos sendo desperdiçados pela falta de resiliência dos modelos produtivos e pela incapacidade da logística para levar a comida do campo à mesa. Ao invés de mais concentração, precisamos desconcentrar; encurtar os circuitos; reduzir ou mesmo eliminar os intermediários. Um dos efeitos das descontinuidades no âmbito da logística tem a ver com as mudanças no entendimento do que é trabalho essencial. Na Europa, trabalhadores rurais imigrantes, sobretudo do Leste Europeu, pela primeira vez passaram a ser valorizados, na medida em que falta mão de obra para a colheita de frutas e verduras em países como Alemanha, França, Itália e outros. Nos Estados Unidos, imigrantes sem documentação passaram a ser protegidos pelos empregadores, também pela primeira vez apontados como “fundamentais para a cadeia de suprimento alimentar”. Segundo uma trabalhadora mexicana, “é como se de repente eles percebessem que estamos aqui contribuindo”.

Além da concentração do capital, é grande o risco de aumento da superexploração ambiental e de intensificação do processo de mudanças climáticas. Nota-se que alguns países estão afrouxando restrições ambientais para estimular a capacidade produtiva, abrindo um precedente para a permanência dessas regras menos restritivas nos próximos meses e anos. Outro aspecto sintomático é o crescimento do mercado de automóveis. Na China, por exemplo, o expressivo aumento da venda de carros nas últimas semanas indica que parte dos usuários de transporte público está migrando para meios de transporte individual, como carros e motos. Da mesma forma, já há sinais de que pequenos agricultores e trabalhadores que vivem do extrativismo da floresta possam recorrer a atividades predatórias para a geração de renda. Esse é o caso de milhares de famílias que vivem do açaí e da coleta de castanhas no Pará, Amazonas e Amapá. Desprovidos de qualquer apoio governamental, esses trabalhadores podem recorrer a alternativas de renda em atividades como a pecuária e a extração de madeira.

Por fim, outro aspecto em risco é a possível escassez de recursos financeiros para pesquisas científicas ligadas a temas como mudanças climáticas, novos modelos produtivos e outros. A lógica da concentração de recursos aliada à urgência de retomada da produção a qualquer custo pode alcançar também o campo acadêmico, levando à concentração dos financiamentos de pesquisas. Na prática, pode provocar a inviabilização da experimentação científica em diversos campos do conhecimento. Tudo isso justamente no momento em que precisamos aprofundar as abordagens interdisciplinares, incentivar elaborações integradas nas ciências e ousar nas soluções apresentadas em torno dos comuns e do bem viver.

Texto publicado originalmente na Revista Teoria e Debate, edição 196, no dia 11 de maio de 2020.

Luiza Dulci é economista (UFMG), mestre em Sociologia e Antropologia (UFRJ) e doutoranda em Ciências Sociais, Desenvolvimento e Agricultura (UFRRJ)
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