Nos primeiros 500m², uma horta: tomate, cenoura, repolho, couve, alface… toda uma cultura de hortaliças consorciada ao cultivo de bananeiras, irrigada e fertilizada com a água dos tanques para criação de peixes. Então o projeto se estende para um pomar agroflorestal, com base em uma tecnologia que trabalha junto com a natureza, por meio de estratégias que aumentam a produtividade e alimentam famílias ao mesmo tempo em que recuperam o solo e os mananciais.  

Assim vai tomando forma o Sistema Agroflorestal (SAF) do Centro de Referência e Capacitação Rural em Tecnologias Sociais Comunidades Sustentáveis (Cetrecs), no distrito de Baguari. A agrofloresta é uma iniciativa da Associação Incubar, em parceria com o CIAAT, e está sendo implantada pelo agrônomo Herlon Vasconcelos e os agricultores Ronaldo e Valdemar, em formação pelo Cetrecs. O objetivo é que ela também sirva como um campo-escola para mais agricultores terem a oportunidade de experimentar e aprender sobre o sistema produtivo na prática.

O potencial educativo do projeto

“A primeira área que estamos preparando tem a finalidade de produção de hortaliças, ou olericultura. Também vai ser realizado o plantio de árvores de bananeiras, com finalidade de poda, consorciado com as hortaliças”, explica Herlon Vasconcelos, responsável técnico do projeto. Como a ideia é continuar expandindo ao longo dos próximos meses para instalar plantas frutíferas, a área do SAF do Cetrecs deve chegar a 1.500m².

O Cetrecs é um espaço da Associação Incubar, que trabalha desde 2012 em parceria com o CIAAT para capacitar agricultores em tecnologias sociais sustentáveis. No atual projeto do SAF, o papel do CIAAT é prestar assessoria técnica e de comunicação para formar uma rede de agricultores familiares na região, a fim de otimizar a produção e a comercialização dos produtos. 

Para o diretor-geral do CIAAT, Antônio Carlos Linhares Borges, a expectativa é que a iniciativa apresente o SAF para os produtores locais e estimule a adoção das suas técnicas pelos pequenos proprietários, assim como pelos detentores de maiores áreas. “O projeto propõe a formação de multiplicadores a partir de jovens da região, incluindo aí filhos de produtores. Pensamos que é uma forma de dialogar com as famílias com maior eficiência. Assim contamos com o potencial inovador dos jovens”, afirma.

O SAF na bacia do rio Doce

De forma resumida, o Sistema Agroflorestal pode ser definido como um processo de restauração florestal com viés produtivo. Mas qual é a sua principal vantagem para a região do médio rio Doce? “O sistema regional retira e não repõe. O SAF repõe e enriquece de forma duradoura e sustentável”, explica Antônio Borges. 

“O modelo implantado na região, visando uma pecuária extensiva, uma monocultura de boi, desconsidera a natureza nativa e a considera inimiga da riqueza. Este modelo se beneficiou da energia gerada pela adubação, deixada nas terras do Rio Doce pela grande floresta que aqui existiu. Enquanto explorou esta fertilidade, o modelo parecia estar correto, pois gerava riqueza. Porém na medida em que a fertilidade não foi reposta e somente retirada, a riqueza se esvaiu pouco a pouco, acabando em baixa produtividade regional, como temos atualmente”.

Antes de ser colonizada, a região era de natureza florestal: cerca de 98% da área da Bacia do Rio Doce está inserida no bioma de Mata Atlântica. A derrubada das árvores e o uso extensivo de queimadas sistemáticas fez com que o capim colonião brotasse e produzisse massa verde, mas apenas enquanto havia nutrientes derivados dela. 

Com a implantação do Sistema Agroflorestal, que imita essa natureza, são preservadas a água do solo e a constituição da terra, a sua estrutura natural, o que proporciona o desenvolvimento das plantas com plenitude e produtividade. 

“Portanto é um sistema que pode corrigir os grandes equívocos no uso do solo do Vale do Rio Doce, que trouxeram para nós degradação, erosão, perda de produtividade e empobrecimento financeiro e econômico para a região. Além da perda hídrica que tem nos preocupado a todos, inclusive aos produtores da região”, conclui Antônio.

Agroflorestar para desenvolver comunidades sustentáveis

Grandes extensões de terras degradadas têm se convertido em agroflorestas produtivas por meio das técnicas da agricultura sintrópica. As ideias de organização, integração, equilíbrio e preservação de energia no ambiente, contidas no conceito de sintropia, são os princípios que norteiam o trabalho do maior difusor dos sistemas agroflorestais na América Latina, Ernst Götsch.

Ao enxergar os seres humanos como parte de um todo maior que funciona sob a lógica da cooperação, todos podem participar do processo de experimentar técnicas e estratégias para aplicar os princípios agroflorestais. Afinal, a principal ferramenta para construir conhecimento é simples, científica e está ao alcance de todos: a observação.

“Ernst parte da observação direta da natureza, e em seguida sintetiza suas observações em teoria. Posteriormente, aplica a teoria e as consequências da teoria com suas próprias mãos. Observa os resultados e a partir deles corrige detalhes, ou mesmo abandona a teoria, adotando ou formulando outra que passe a considerar mais útil para o aperfeiçoamento do trabalho. Este é um jeito de trabalhar altamente recomendado pelos maiores estudiosos sobre o saber científico, no qual as famílias campesinas, quilombolas e assentadas e as organizações que protagonizaram as ações refletidas neste livro acreditam.”

(trecho do livro “Agroflorestando o mundo de facão a trator”, da Cooperafloresta, p. 16).

Assim os produtores que adotam o SAF desenvolvem uma percepção integrada à natureza, além de se beneficiarem com a economia de recursos e a melhoria da qualidade dos produtos. De norte a sul do país, os exemplos se multiplicam e vão desde associações agroflorestais como a Agrodoia, no sertão pernambucano, até agroflorestas em larga escala, como a Fazenda Toca, em São Paulo. Na Bacia do Rio Doce, o Sítio Ouro da Terra, em Naque, e a Agrofloresta Vale do Sol, em Governador Valadares, são algumas das iniciativas que compartilham dos princípios da Agricultura Sintrópica. 

Com a Agrofloresta do Cetrecs, a Associação Incubar e o CIAAT entram para essa rede como aprendizes e disseminadores de conhecimento. E à medida que o SAF vai se estruturando, crescendo e se tornando autossuficiente para depender cada vez menos de intervenções, o campo-escola se estabelece como uma nova estratégia para fortalecer o desenvolvimento de comunidades sustentáveis na região. 

Luiza Ribeiro de Lima

Jornalista e Comunicadora Social

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