“Então eu diria o seguinte: não tem mais nada pra queimar, porque pouco restou para fazer limpeza. Limpeza de um pasto que praticamente não existe mais?”. Assim o professor Alexandre Sylvio, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), dá início ao vídeo sobre a prática das queimadas para a série Bacia do Rio Doce em foco.

Em Governador Valadares, é comum observarmos um aumento na incidência das queimadas durante o período da seca. Além de serem as principais responsáveis pela degradação do solo da região, elas são altamente prejudiciais para a atmosfera, devido à emissão de carbono, e para o produtor rural, pois dificultam o desenvolvimento e sustentabilidade da agricultura local.

Consequências para a região

As queimadas passaram a ocorrer com frequência nas décadas de 50 e 60, devido à exploração do território para manejo de gado. No entanto, até hoje elas são uma prática adotada pelos produtores pecuários da região, pois o fogo é um meio barato para a limpeza da pastagem, que é de baixa a média produtividade.

“O que o produtor muitas vezes não sabe é que as queimadas ‘tendem’ a enriquecer o solo de uma forma imediata, afinal, nutrientes como fósforo e potássio ficam disponíveis na planta seca após a queimada. Só que tem um detalhe: com a queimada, o produtor também está eliminando o nitrogênio e a matéria orgânica do solo. E com o período chuvoso, aqueles nutrientes que ficaram disponíveis no solo são praticamente lixiviados, permanecendo quase nada no ano seguinte”, explica Alexandre.

Esse processo vai degradando o solo aos poucos, tornando-o cada vez mais pobre em matéria orgânica e provocando a sua exposição. Como predominam na região os latossolos e argilossolos, com baixa capacidade de absorção, quando ocorrem chuvas mais intensas a água escorre superficialmente em vez de infiltrar da forma adequada. Assim tem início o processo de erosão.

“Quando você olha para a pastagem e vê peladeiros, áreas sem planta nenhuma, aquilo é um indicativo de exposição do horizonte subsuperficial do solo, b-textural. É um horizonte altamente adensado, e, por conta da pastagem, altamente compactado. Todo horizonte fértil a-superficial já foi praticamente erodido, levado embora. Basta olharmos para dentro do Rio Doce no período de seca, onde podemos observar vários bancos de areia decorrentes do processo de erosão dos solos na nossa região”.

Como resolver o problema?

A degradação do solo pelas queimadas é um processo lento, que vem acontecendo há décadas e que interfere na agricultura e na pecuária por diminuir drasticamente a capacidade de produção. “Nem a tiririca, uma planta rústica de fácil ocupação, consegue ocupar os peladeiros por conta da situação do solo”.

Da mesma forma, a recuperação é um processo que vai demandar tempo e certa capacidade financeira do produtor rural, além de informação técnica, para tornar as pastagens da região férteis novamente. A perspectiva é que um dia elas possam comportar oito cabeças de gado por hectare, enquanto a média atual é de duas cabeças de gado por hectare. Para o professor da UFVJM, a situação ainda é muito complicada na região, de um modo geral.

Alexandre aponta duas soluções para substituir as queimadas na limpeza de pastagens: o manejo adequado do gado ou o uso de herbicidas, que apesar de ser mais simples, implica um custo maior para os produtores. Quanto ao manejo adequado, a maior dificuldade é levar orientação técnica para os produtores rurais, uma necessidade que pode ser suprida com projetos como o Balde Cheio, da Embrapa. “Alguns produtores já atuam no processo de recuperação de pastagem e apresentam resultados fantásticos, mas a grande maioria da região ainda não tem esse encaminhamento”, afirma.

Bacia do Rio Doce em foco

A entrevista com o professor Alexandre Sylvio faz parte da série Bacia do Rio Doce em foco, produzida desde junho em parceria com o Instituto Federal de Minas Gerais em Governador Valadares (IFMG-GV). Com o projeto, busca-se levantar reflexões sobre bacia hidrográfica do rio Doce e despertar uma identificação do público com o território, por meio da produção de conteúdo junto a representantes de entidades atuantes na região.

 

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